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Com coronavírus, vendas de veículos leves retornam a patamares pré-2019

Joel Leite

20/03/2020 15h37

Paulo Cardamone e Cassio Pagliarini – Bright Consulting

O objetivo deste artigo é trazer uma visão sobre as consequências da pandemia do coronavírus no setor automotivo brasileiro em curto prazo, quantificando, de maneira orientativa, seus impactos na cadeia automotiva.

Países inteiros tiveram sua mobilidade restringida e atividades que envolvem aglomerações canceladas. Campeonatos esportivos, shows artísticos, feiras e eventos, reuniões de negócios, aulas e seminários foram suspensos com o objetivo de reduzir a expansão do contágio ao redor do planeta.

O surgimento de uma enfermidade tão contagiosa como esta tem causado pânico nas pessoas, nos mercados e nas atividades comerciais do mundo todo. Mesmo considerando que a prioridade é de salvaguardar a saúde e segurança da população, entendemos que o grande desafio da cadeia automotiva será o de gerenciar um "fluxo de caixa" extremamente fragilizado por impactos no suprimento, produção, vendas e distribuição de veículos.

O choque econômico pela paralisação de tantas atividades será grande. Se, por um lado, grandes empresas conseguem calcular o prejuízo gerado em uma semana sem produção, empresas de pequena escala como lojas, prestadores de serviço e trabalhadores autônomos se perguntam como sobreviverão a esse período de portas fechadas que representará uma redução dramática de seus recursos e, provavelmente, muitas falências.

A indústria automobilística

Na indústria automobilística, as consequências também são multifacetadas e nossas premissas consideram o pico da disseminação do coronavírus nos próximos 30/45 dias e estabilização da propagação no último trimestre de 2020.

Impacto nas vendas: com a quarentena e regime de emergência adotados, o que acontece com a demanda por automóveis? As pessoas não sairão de casa, se sentirão inseguras em fazer investimento neste momento e grande parte da rede de concessionários estará fechada. Cai a venda de veículos 0 KM ou usados e os estoques que diminuíram nos dois últimos meses de 2020 serão impactados tanto pela perda de produção quanto pela falta de compradores.

Estimamos que as vendas de veículos leves cheguem a 2,61 milhões de unidades em 2020 (- 3% em relação a 2019), mesmo com o resultado previsto de aproximadamente 600 mil unidades do primeiro trimestre, mostrando um aumento de 5% em relação a 2019.

Impactos na produção: a paralisação das empresas de Wuhan já se fez sentir nas fábricas mais próximas. Wuhan é sede de grande parte dos fornecedores chineses de autopeças e a falta desses componentes afetará todas as montadoras. Em países próximos, como Coréia do Sul ou Japão, os efeitos foram quase imediatos e, no Brasil, onde a maioria das operações deverá parar por semanas no curto prazo, os efeitos continuarão a ser sentidos nos próximos 2 ou 3 meses. A busca pela recuperação futura da produção perdida está fora do radar neste momento e será dependente de improvável retomada mais acelerada das vendas e de custos maiores.

Com importações menores por conta da queda das vendas e do câmbio depreciado e exportações reduzidas em função da recessão dos mercados com quem nos relacionamos, estimamos, neste momento, que a produção de veículos leves atinja 2,67 milhões de unidades em 2020, 4% menor em relação a 2019.

Impacto nos custos: como consequência da percepção de aumento de risco do Brasil, o mercado financeiro está precificando a depreciação acelerada do câmbio que deve se manter na casa de R$ 4,80 a R$ 5,00 por US$ por longo período.

O efeito direto é o aumento do custo dos veículos produzidos localmente uma vez que, hoje, o conteúdo importado varia de 30% a 70% do custo variável, por conta do aumento de conteúdo tecnológico no portfólio das montadoras e das decisões de "sourcing" externo dos últimos anos. Mesmo as empresas com limitada parcela de importações sofrem com as commodities custeadas em dólar e as que, porventura, fizeram um hedge agressivo em moeda estrangeira terão fôlego apenas para um número limitado de semanas.

Comparativamente à taxa de câmbio de R$ 3,8/US$ de um ano atrás, aumentos de preços entre 10% e 20%, adicionais aos aumentos já aplicados no período, terão que ser repassados ao mercado rapidamente o que irá impactar ainda mais as vendas no varejo.

Operação e Distribuição podem ser afetadas

Os impactos serão gigantescos no Brasil com maiores gastos públicos, anteriormente planejados para financiar o início de um movimento mais robusto de crescimento, aplicados à saúde. No entanto, além do estrago financeiro, prevemos que dois aspectos importantes virão à tona no médio prazo como consequência da experiência das empresas com o novo regime de isolamento:

Modelo Operacional – A atual realidade de operação à distância deverá trazer, no período pós-crise, reflexões e questionamentos sobre o Modelo Operacional pré-crise, no qual inúmeras reuniões, comitês e grupos de trabalho faziam parte da rotina das empresas para que decisões pudessem ser tomadas.

Modelo de Distribuição – Diferentemente dos movimentos disruptivos relacionados à evolução da conectividade, propulsão e serviços de mobilidade que não deverão sofrer grande ruptura, o Modelo de Distribuição de veículos deverá ser impactado pela aceleração de soluções digitais que possam amenizar os impactos da longevidade da crise e do acesso à rede. O risco associado à sobrevivência das grandes concessionárias cresce exponencialmente.

Joel Silveira Leite

Joel Silveira Leite é jornalista e pós graduado em Semiótica e Meio Ambiente. Diretor da Agência AutoInforme, responde pelos sites AutoInforme e EcoInforme. Apresenta o Boletim AutoInforme nas rádios Bandeirantes, Band News e Sulamérica Trânsito. É colunista em várias publicações.

O Mundo em Movimento

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